O cenário é desanimador para a comemoração dos 50 anos de relações entre China e União Europeia, nesta quinta-feira (24), em Pequim. Os negociadores chegaram na quarta à noite com um único esboço de comunicado conjunto, sobre mudança do clima. O documento seguiu para apreciação final dos dois lados.
A expectativa de avanço sobre comércio e investimentos é mínima. A guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos prometia aproximar chineses e europeus, mas acabou estimulando o oposto.
Pequim colocou na mesa o controle de exportação de terras-raras, minérios necessários para produção industrial de automóveis a armamentos, e acabou atingindo não só os EUA, mas a Europa.
Países da região, a começar pela Alemanha, vêm priorizando a reindustrialização militar para responder à pressão americana por mais gastos no setor —e também à sua própria queda de competitividade, com a perda do acesso à energia da Rússia.
Nas últimas semanas, em encontros do chanceler Wang Yi com seus pares europeus, a China não cedeu às demandas, concentradas no fornecimento estável de terras-raras, mas o país já não vinha demonstrando interesse pela cúpula.
Previsto originalmente para Bruxelas, o evento foi transferido para Pequim depois que o líder Xi Jinping recusou o convite. Ele participa da cerimônia nesta quinta, mas as negociações serão feitas pelo primeiro-ministro Li Qiang. Um segundo dia de cúpula foi negado aos líderes da UE.
Apesar disso, analistas chineses veem utilidade na cerimônia. “Ela é crucial neste momento em que o mundo está tão diferente de 50 atrás, particularmente com os EUA buscando unilateralismo”, diz Wang Huiyao, que preside o think tank Centro para China e Globalização, de Pequim.
“China e UE têm razão absoluta para colaborar”, para não ficarem isoladas na negociação com os EUA do presidente Donald Trump, argumenta ele, que foi assessor do Conselho de Estado, o gabinete chinês. “Têm de trabalhar juntas para salvaguardar o multilateralismo. Suas economias são complementares.” Para tanto, os líderes europeus teriam de adotar uma postura de “independência estratégica, em vez de seguir os EUA tão de perto”.
Ao longo de 50 anos, houve outros momentos de baixa nas relações, com motivação política, não econômica. O primeiro afastamento se deu em 1989, após a repressão aos protestos em favor da democracia. Foi então que começou o embargo de armamentos, mantido até hoje, diferentemente das sanções econômicas, que caíram em poucos anos.
Nas negociações sobre terras-raras, agora, a UE teria chegado a levantar a possibilidade de uma limitação dos minérios à indústria civil europeia, mas não houve avanço —diferentemente do que aconteceu nas conversas chinesas com os EUA de Trump, que tem falado sobre o retorno do suprimento de terras-raras.
O mais provável é que Pequim espere para negociar com o novo premiê alemão, Friedrich Merz, que estaria preparando uma visita de Estado a Xi nos próximos meses, com uma delegação de empresas alemãs.
A cúpula é tratada com menor atenção também pela parte europeia. O comissário de Comércio e Segurança Econômica, Maros Shevcovic, permaneceu em Bruxelas, limitando-se a uma conversa em vídeo com o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao, na terça-feira (22).
Ao que tudo indica, Shevcovic ficou para trás com o objetivo de preparar a retaliação da UE, caso se confirme no próximo dia 1º a taxação americana de 30% sobre os produtos europeus. Entre os produtos americanos a serem atingidos, segundo a Bloomberg, estão soja e aviões da Boeing.
O Ministério do Comércio chinês também tinha os EUA como prioridade na véspera da cúpula. Anunciou que o vice-primeiro-ministro e principal negociador do país, He Lifeng, estará na Suécia a partir de domingo para nova rodada de conversas com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent.
Na cúpula, com Xi e depois Li Qiang, estarão os presidentes do Conselho Europeu, António Costa, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ambos passaram na quarta por Tóquio, onde as suas conversas com o primeiro-ministro Shigeru Ishiba foram ofuscadas pelo anúncio do acordo comercial do Japão com os EUA.
1964: A França de Charles de Gaulle reconhece a República Popular da China. É seguida depois por Itália, Alemanha Ocidental, Espanha e outros.
1975: China e Comunidade Econômica Europeia (CEE), predecessora da União Europeia, estabelecem relações diplomáticas.
1978: A China inicia o processo de reforma e abertura e assina um primeiro acordo comercial com a CEE.
1985: Acordo entre China e CEE formaliza relações econômicas e comerciais.
1989: A CEE impõe sanções à China após a repressão dos protestos em favor da democracia.
1994: China e União Europeia estabelecem um mecanismo de diálogo político, levando à suspensão das sanções, exceto o embargo de armas.
1997: Reino Unido devolve Hong Kong à China. No ano seguinte, é realizada em Londres a primeira cúpula China-UE, que se torna anual.
2001: China entra para a Organização Mundial do Comércio.
2003: China e UE estabelecem parceria estratégia ampla, proposta pelos europeus.
2013: China lança a Iniciativa Cinturão e Rota, atraindo europeus como Polônia e Itália, que depois saiu por pressão dos EUA.
2019/2021: China e UE fecham acordo sobre investimento, inclusive acesso mútuo aos mercados, inviabilizado após europeus se unirem a Washington nas pressões a Pequim em torno de Xinjiang, Hong Kong e Taiwan.
2025: Conflitos comerciais entre China e UE, em meio à guerra tarifária iniciada pelos EUA, reduzem expectativa sobre cúpula do cinquentenário de relações diplomáticas.