O Nepal vive a sua pior onda de protestos em décadas, marcada por violência, mortes e instabilidade política, após o bloqueio temporário das redes sociais no país. As manifestações, que começaram no dia 4 de setembro de 2025, resultaram na renúncia do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli, aprofundando a incerteza sobre o futuro do governo.
Protestos liderados por jovens
A mobilização ganhou força especialmente entre estudantes, apelidados pela imprensa internacional de a “Geração Z dos protestos”. Jovens com uniformes escolares e universitários ocuparam as ruas em várias cidades, denunciando não apenas a censura digital, mas também a corrupção endémica e a falta de oportunidades económicas.
“Queremos ver o fim da corrupção no Nepal”, afirmou Binu KC, estudante de 19 anos, à BBC Nepali. Segundo ela, a proibição das redes sociais prejudicou até mesmo o acesso às aulas on-line e recursos de estudo.
Saldo de mortos e feridos
De acordo com o Ministério da Saúde, os protestos já provocaram 25 mortos e 633 feridos. Entre os episódios mais graves estão incêndios em edifícios governamentais, incluindo o Supremo Tribunal e residências de ministros. A casa do ex-primeiro-ministro Jhala Nath Khanal foi incendiada, resultando na morte de sua esposa. Outro ex-chefe de governo, Sher Bahadur Deuba, e a ministra dos Negócios Estrangeiros Arzu Rana Deuba, também foram agredidos em sua residência.
Bloqueio das redes sociais
O estopim foi o bloqueio das redes sociais, anunciado após as empresas não cumprirem as novas regulamentações de registo impostas pelo governo. A medida visava combater crimes digitais, perfis falsos e discurso de ódio. Porém, a proibição desencadeou revolta popular e acabou suspensa no dia 8 de setembro, após a morte de 19 manifestantes em confrontos com a polícia.
Renúncia do primeiro-ministro
Com o agravamento da violência, o primeiro-ministro K.P. Sharma Oli apresentou a sua renúncia no dia 9 de setembro, apesar de apelos anteriores ao diálogo. A saída de Oli mergulha o Nepal numa nova fase de incerteza política, já que não está claro quem assumirá o comando do governo.
Intervenção do Exército
O Exército do Nepal declarou-se responsável pela aplicação da lei e impôs toque de recolher até 11 de setembro. Em comunicado, advertiu que atos de vandalismo, incêndios e ataques a pessoas ou propriedades serão tratados como crimes graves.
O chefe militar, General Ashok Raj Sigdel, apelou ao diálogo, embora ainda não haja lideranças claras entre os manifestantes.
Apoio isolado
A única figura política a apoiar publicamente os protestos foi o prefeito de Katmandu, Balen Shah, que pediu moderação em suas redes sociais.
Contexto
Desde a abolição da monarquia em 2008, o Nepal tem enfrentado instabilidade política e crises económicas sucessivas. Os atuais protestos revelam o profundo descontentamento social e colocam em causa a capacidade do país de manter a ordem sem comprometer as liberdades civis.
