Folga petrolífera expõe dilema recorrente da economia angolana

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A subida recente do preço do petróleo nos mercados internacionais, impulsionada pelas tensões geopolíticas no Médio Oriente — em particular os riscos no estreito de Ormuz — volta a colocar Angola numa posição aparentemente confortável: a de beneficiária de um choque externo positivo. Mas, como a história económica do país demonstra, o verdadeiro teste não está no ganho imediato, mas na forma como esse ganho é gerido, é a ideia central da crónica semanal de Adebayo Vunge no Jornal de Angola. Eis o essencial da análise.

O Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2026 foi construído com uma base prudente, assumindo um preço de referência de 61 dólares por barril e uma produção na ordem de 1,05 milhão de barris por dia. No entanto, a realidade tem seguido outro rumo. O Brent tem oscilado entre os 80 e mais de 100 dólares, com picos recentes próximos dos 119 dólares, criando um diferencial positivo significativo.

Este desvio pode traduzir-se em receitas adicionais relevantes para o Estado, caso o actual contexto internacional se mantenha. Num país onde o petróleo continua a ser a principal fonte de receitas externas e fiscais, o impacto é directo: maior arrecadação, potencial redução do défice orçamental e melhoria do saldo externo. Mas o cenário favorável é, por natureza, conjuntural.

Três caminhos possíveis. Perante este excedente, a resposta política e económica será determinante. Uma abordagem equilibrada passa por três eixos: reforço das Reservas Internacionais, redução selectiva da dívida pública — sobretudo externa — e investimento produtivo criterioso, com retorno económico claro.

Entre estes, o reforço das reservas surge como prioridade estratégica. Num país ainda em processo de reconstrução da credibilidade financeira, este instrumento assume um papel central enquanto âncora macroeconómica.

Angola arrecadou cerca de 24,4 mil milhões de dólares em exportações petrolíferas em 2025, um valor altamente sensível às oscilações do preço internacional. A tentação de transformar rapidamente esse excedente em despesa é conhecida — e já teve custos elevados.

Durante o superciclo das commodities, entre 2004 e 2014 — período que alguns economistas classificam como uma “mini-idade de ouro” — Angola beneficiou de preços elevados do petróleo. A resposta foi, em grande medida, uma expansão acelerada da despesa pública, nem sempre acompanhada de eficiência.

O aumento do investimento público, muitas vezes fora dos planos estruturados, o crescimento da despesa social e o recurso ao endividamento colateralizado ao petróleo marcaram esse período.

O desfecho foi abrupto. Com a queda acentuada dos preços entre 2014 e 2015, o país enfrentou uma crise cambial severa, inflação elevada e uma forte deterioração das reservas internacionais, que caíram de 32,2 mil milhões de dólares em 2013 para 24,3 mil milhões em 2016. Seguiu-se o recurso a assistência financeira internacional.

Apesar das reformas dos últimos anos, Angola continua exposta a fragilidades estruturais: produção petrolífera em declínio, elevado peso do serviço da dívida — que consome quase metade da despesa pública — e forte dependência das receitas do crude.

É neste contexto que o reforço das Reservas Internacionais Líquidas ganha relevância acrescida.

Reservas robustas aumentam a confiança dos mercados, reduzem o prémio de risco e melhoram as condições de financiamento externo. Permitem também maior estabilidade cambial, ajudando a conter a inflação importada — um dos principais fatores de pressão sobre o custo de vida. Além disso, funcionam como amortecedor para choques futuros. A história dos mercados energéticos mostra que períodos de alta tendem a ser seguidos por ajustamentos.

A actual conjuntura coloca novamente Angola perante uma escolha conhecida: ceder à pressão para gastar ou apostar na estabilização.

Se gastar o excedente é politicamente apelativo, poupar e consolidar reservas é, do ponto de vista económico, a decisão mais prudente.

O momento é, por isso, menos sobre a folga financeira e mais sobre a maturidade da resposta. O excedente petrolífero não deve ser encarado como margem para expandir a despesa, mas como uma oportunidade para reforçar a resiliência da economia. A diferença, desta vez, poderá estar na capacidade de resistir à tentação do curto prazo.

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