Preço elevado dos fertilizantes ameaça agravar dificuldades dos produtores angolanos

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A subida dos preços dos fertilizantes nos mercados internacionais está a gerar forte preocupação entre associações agrícolas e importadores em Angola, que alertam para um agravamento das dificuldades dos produtores nacionais, fortemente dependentes da importação desta matéria-prima essencial.

Na origem desta situação está o conflito militar que opõe os Estados Unidos e Israel ao Irão desde Fevereiro deste ano, com impacto directo nas exportações de produtos como ureia, amónia, fosfatos e enxofre. O encerramento do estreito de Ormuz para a maioria dos países tem condicionado o abastecimento global, pressionando os preços.

Segundo o director da Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA), Simione Chiculo, as consequências para Angola serão inevitáveis, dado que o país depende quase exclusivamente da importação de insumos agrícolas. Em 2025, Angola importou cerca de 129.990 toneladas de fertilizantes, de acordo com dados oficiais.

O responsável alerta que, sem a entrada em funcionamento da fábrica de fertilizantes do Soyo, na província do Zaire, os efeitos serão sentidos diretamente pelos agricultores, sobretudo a partir da próxima campanha agrícola.

Chiculo sublinha que a necessidade de fertilização é estrutural, já que grande parte dos solos aráveis do país apresenta baixa fertilidade natural, especialmente nas regiões do planalto, leste e norte, onde a elevada pluviosidade contribui para a lixiviação dos nutrientes.

“A fertilização dos solos é uma condição indispensável para aumentar a produtividade agrícola”, afirmou, apontando o caso do milho, cuja produção média em Angola ronda duas toneladas por hectare, muito abaixo da média mundial superior a sete toneladas.

O responsável defende ainda a redução da dependência externa, alertando para o risco de, em caso de escassez, os fertilizantes serem canalizados prioritariamente para grandes produtores, em detrimento dos pequenos agricultores, responsáveis por mais de 80% da produção nacional.

Do lado dos importadores, o cenário também é de incerteza. O diretor comercial da Solevo Angola, Renaud Chazeaux, afirma que actualmente é “impossível” fazer encomendas no mercado internacional, devido ao desequilíbrio entre procura e oferta.

O responsável destaca que a guerra no Médio Oriente está a afectar tanto a produção como o transporte marítimo, com reflexo direto nos custos logísticos. Como exemplo, refere que os preços dos contentores entre a China e África aumentaram 50% em apenas duas semanas.

Embora o impacto imediato ainda seja limitado, por coincidir com o final da actual campanha agrícola, Chazeaux antecipa aumentos significativos de preços na próxima época (2026-2027), estimando subidas entre 30% e 40%. A ureia, por exemplo, já registou um aumento de 100% no mercado internacional.

Também a presidente da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agropecuárias de Angola (Unaca), Ricardina Machado, alerta que o problema não é novo, mas tende a agravar-se.

“Os camponeses já enfrentavam grandes dificuldades devido aos preços elevados dos fertilizantes, muitas vezes contraindo dívidas para conseguir produzir”, afirmou, apontando ainda atrasos na entrega dos produtos como outro entrave à atividade agrícola.

Perante este cenário, Ricardina Machado considera urgente o investimento na produção nacional de fertilizantes, defendendo que a criação de uma fábrica em Angola é essencial para garantir maior estabilidade e autonomia no setor agrícola.

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