A Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) completa hoje, 2 de Julho, 12 anos de existência. Uma década e dois anos depois da sua criação, a bolsa angolana fecha 2025 com números sem precedentes e entra em 2026 com dois dos maiores IPO da sua história já anunciados — a dispersão de capital da Unitel e do Standard Bank Angola.
O balanço de 2025 foi traçado por Cristina Lourenço, Presidente da Comissão Executiva da BODIVA, em entrevista ao estudo “Banca em Análise 2026” da Deloitte. Os dados falam por si: volume de negociação de Kz 5.725,68 mil milhões, crescimento de 260% no número de negócios, que atingiu o máximo histórico de 37.156 transacções. A capitalização bolsista ultrapassou, pela primeira vez, os Kz 4 biliões.
“O ano de 2025 destacou-se pela realização da oferta pública de venda do BFA, inédita não só pela sua dimensão — até então a maior realizada — mas também pelo facto de ser a admissão à negociação que impulsionou a dinâmica do mercado accionista”, afirmou Cristina Lourenço. O IPO do BFA registou um rácio de procura de 506,37% — um sinal claro do apetite crescente dos investidores angolanos pelo mercado de capitais.
O dinamismo estendeu-se aos demais segmentos, com as emissões obrigacionistas da Etu Energias e da Griner, a admissão de mais um fundo no Mercado de Bolsa de Unidades de Participação e, em 2026, a admissão à negociação das obrigações privadas do BAI. Até ao final do primeiro trimestre de 2026, o volume de negociações ascendeu a Kz 2.874,74 mil milhões — cerca de metade do total negociado em todo o ano de 2025.
Constrangimentos estruturais persistem
Apesar dos avanços, Cristina Lourenço identifica constrangimentos que continuam a limitar a utilização do mercado bolsista pelas empresas angolanas. Do lado da oferta, as empresas privilegiam o crédito bancário como principal fonte de financiamento, por maior familiaridade e percepção de menor complexidade. A resistência à abertura do capital — frequentemente associada a modelos de gestão familiar e fechado — e os níveis ainda baixos de maturidade em governação corporativa funcionam como travões à entrada em bolsa.
Do lado da procura, os desafios centram-se na limitada base de investidores, no reduzido nível de literacia financeira, na baixa diversidade de instrumentos financeiros e na fraca participação de investidores institucionais não bancários. A inexistência de uma contraparte central continua a constituir uma limitação ao desenvolvimento mais profundo do mercado multilateral.
Unitel e Standard Bank em 2026
A BODIVA antevê que as entradas previstas da Unitel e do Standard Bank Angola no mercado accionista — de acordo com o Programa de Privatizações do Estado — tenham um impacto estrutural relevante. “A expectativa da BODIVA é que estas entradas contribuam de forma significativa para o aumento da capitalização bolsista e para um maior dinamismo no mercado secundário, resultando no impulsionamento da liquidez”, afirmou Cristina Lourenço.
A presidente da Comissão Executiva sublinha que o contexto actual é substancialmente mais favorável do que no início do ciclo de IPO, em 2022 — com uma base de investidores mais alargada e participativa e agentes de intermediação com maior experiência e preparação.
Estratégia até 2028
No plano estratégico até 2028, a BODIVA definiu como prioridades o aumento da liquidez e da diversidade de instrumentos, o alargamento da base de investidores, a melhoria da infra-estrutura tecnológica e a implementação da contraparte central. A bolsa pretende ainda atrair mais empresas ao mercado, lançar um índice bolsista e fomentar o surgimento de market makers no segmento de instrumentos privados.
Fonte: Deloitte Angola — Banca em Análise 2026
