Músico deixa 50 anos de canções a solo e com os Trovante

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A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, lamentou hoje a morte do músico Luís Represas, “uma das vozes mais icónicas da música portuguesa contemporânea”.

“Desaparece uma das vozes mais icónicas da música portuguesa contemporânea, além de um talentoso compositor. A solo e com os Trovante, deixa uma marca inesquecível na nossa memória coletiva”, escreveu a ministra na rede social X.

O Governo de Timor-Leste recordou hoje Luís Represas como um “amigo de longa data”, que deu voz às vítimas das atrocidades cometidas durante a ocupação indonésia.

“Foi com elevada consternação que tomamos conhecimento do falecimento de Luís Represas, um amigo de longa data de Timor-Leste”, afirma, em comunicado, o Governo timorense.

No comunicado, as autoridades timorenses lembram que Luís Represas interpretou a canção “Timor” pela última vez no país em 2019, durante as celebrações dos 20 anos da realização da consulta popular, em 30 de agosto de 1999.

“Luís Represas deu voz aos que não podiam contar ao mundo as atrocidades de que eram vítimas durante o período da ocupação indonésia. Esta canção tornou-se então símbolo da luta pela liberdade e pela autodeterminação do povo timorense, contra a injustiça que lhe era infligida”, salienta o Governo timorense.

“O Governo de Timor-Leste expressa o mais profundo pesar pelo falecimento de Luís Represas e apresenta à sua família e amigos as suas mais sentidas condolências”, acrescenta.

“As suas músicas foram o nosso mapa, paisagem e código secreto” – Missão Timor

O gestor Rui Pereira Marques, que promoveu a iniciativa Missão Paz em Timor – Lusitânia Expresso, no início da década de 1990, lembra o músico Luís Represas, que morreu hoje, em Lisboa, e o modo como Timor os “fez companheiros de caminho”.

O fundador da Fórum Estudante, antigo alto-comissário para a Imigração, garante, porém, que dessa proximidade com Luís Represas “fica muito mais”, pois as suas canções “foram o nosso mapa, a nossa paisagem, o nosso código secreto”, como escreveu hoje, numa mensagem nas redes sociais.

“Todo o nosso compromisso por Timor, nos idos dos anos 90, tinha um hino e uma voz que sempre acompanhava tudo o que fazíamos”, recorda Rui Marques, a propósito da canção “Timor”. “Quando parecia uma causa impossível – ‘se outros esquecem, cantemos nós’ – essa música animava-nos para continuar. Começou numa campanha na [Rádio] Renascença e expandiu-se em toda a epopeia do Lusitânia Expresso e, naturalmente, esteve presente no momento da independência” de Timor-Leste.

“Mas, para nós, Luis Represas e o Trovante eram mais do que isso”, prossegue Rui Marques. “As suas músicas foram o nosso mapa, a nossa paisagem, o nosso código secreto, os nossos sorrisos e também as nossas lágrimas. Por isso, quando em março revisitámos ao vivo esse roteiro [nos concertos que voltaram a reunir os Trovante], recordámos quão significativo foi para nós. Dizia-nos tanto. […] Devemos-lhe muito mais do que imaginávamos”.

A Missão Paz em Timor – Lusitânia Expresso, iniciativa de solidariedade realizada em 1992, apoiada pela revista Fórum Estudante, reuniu cerca de 120 jovens de mais de 20 países, e personalidades como o anterior Presidente da República Ramalho Eanes, com o objetivo de homenagear as vítimas do Massacre de Santa Cruz, em Díli, ocorrido no ano anterior. A viagem visava furar o bloqueio e denunciar a ocupação, mas foi bloqueada pelas forças indonésias.

A canção “Timor”, com música de João Gil e letra de João Monge, que vinha do álbum do grupo “Um destes dias” (1990), voltou a juntar os Trovante em 1999 e transformou-se num dos principais temas da luta que levou à independência timorense. A letra viria a ser traduzida para tetum, por Xanana Gusmão.

Represas foi convidado pelo então Presidente da República Portuguesa Jorge Sampaio para o acompanhar na visita oficial a Timor-Leste, em 2000. Em 2016, seria condecorado com a Medalha da Ordem de Timor-Leste pelo Presidente Taur Matan Ruak.

Hoje, entre as reações à morte do músico, o escritor Rui Zink, também no Facebook, recorda uma história do Liceu Pedro Nunes quando ele, mais pequeno, atacado por outros alunos, foi defendido pelo mais velho Luís Represas.

“A coisa ia acabar mal, quando chegam os ainda mais crescidos Luís e Manuel Faria [cofundador dos Trovante] a desenervar a cena com a segurança do Wyatt Earp e do Doc Halliday. Eram a epítome do ‘cool’ quando a palavra ‘cool’ ainda não era ‘cool’. Décadas depois, eram também ‘gente normal’, mesmo quando enchiam estádios e não era normal quem enchia estádios portar-se como gente normal. O Luís era em palco o mesmo que fora de palco. O eterno cabelo à candeeiro dos anos 70, o sinalzinho, o desassombro”.

A Embaixada de Cuba em Portugal reagiu igualmente “com profunda dor” à morte de Luís Represas. O músico gravou neste país o seu primeiro álbum a solo, “Represas”, contando com vários músicos locais, entre os quais Pablo Milanés (1943-2022).

Luís Represas “foi um inesquecível amigo de Cuba e um fervente admirador da música cubana”, lê-se na mensagem da embaixada, que recorda os momentos iniciais de uma “longa relação” do músico com Cuba, iniciada em 1978, quando atuou no Festival Mundial da Juventude, “que incluiu concertos na ilha, gravações e colaborações com algumas das figuras mais importantes da trova cubana”.

A CGTP, por seu lado, recordou Luís Represas como “figura marcante da música portuguesa, cantor e compositor com uma carreira de 50 anos, homem empenhado e comprometido com os valores da Revolução do 25 de Abril e com as causas da justiça social”, tendo participado “solidariamente em muitos momentos e iniciativas da vida e da luta dos trabalhadores e da CGTP-IN”.

Para esta central sindical, “ficam as memórias e, para sempre, o seu legado, trabalho e música, que contribuem para uma sociedade mais justa e fraterna, de progresso, num mundo de paz”.

“Não é justo”, diz ator Ruy de Carvalho

O ator Ruy de Carvalho reagiu à morte do músico Luís Represas, que ocorreu hoje, em Lisboa, afirmando que “não é justo”, por o cantor ter estado sempre a seu lado e não ter tido hipótese de se despedir.

Numa publicação na sua página oficial na rede Instagram, Ruy de Carvalho escreve: “Não é justo, meu querido Luís. Estiveste sempre a meu lado e não pude despedir-me de ti com a mesma Amizade e Carinho com que sempre me trataste”.

O ator de 99 anos sublinha que “Portugal deve muito” ao cantor e conclui: “Em breve estaremos todos juntos a cantar”.

António Manuel Ribeiro e os UHF, Ana Bacalhau, Fafá de Belém, Mafalda Veiga, Quatro e Meia, Quinta do Bill e Tito Paris contam-se entre músicos e bandas que também reagiram à morte de “um homem e músico especial”, à semelhança de instituições como a Sociedade Portuguesa de Autores, o Centro Nacional de Cultura e o Centro Cultural de Belém.

O músico António Manuel Ribeiro, líder dos UHF, escreveu nas redes sociais “partiu um dos nossos”, recordando que partilhou espectáculos com Luís Represas e os Trovante, “quando tudo era precário, a começar pelo palco, mas onde nada falhava porque queríamos fazer e ser”.

“De tudo aquilo que o Luís gravou com os Trovante e a solo, destacarei sempre a canção ‘Timor’, porque representa o poder pacífico que a canção pode trazer, e traz, para ajudar a resolver uma tragédia. Um alerta, pela Paz”, afirma António Manuel Ribeiro.

A cantora Ana Bacalhau confessa admiração pela voz de Luís Represas, “não só pela beleza do timbre, mas pela forma como comunicava o sentido daquilo que cantava”. E acrescenta: “Era um artista que não tinha medo de defender as suas ideias e por isso o admirava também. […] Ficamos com a sua arte. Que a saibamos preservar, escutar e passar às gerações vindouras, porque a riqueza que nos deixou é incalculável.”

Mafalda Veiga lembra o início da sua carreira, na década de 1980, quando Luís Represas a convidou para cantar com ele.

“Tinha acabado de gravar o primeiro disco, estava só a começar, e ele foi de uma generosidade enorme”, escreve Mafalda Veiga, nas redes sociais, concluindo: “Continuarás por aqui na tua música eterna e nas memórias extraordinárias que nos deixas”.

A cantora brasileira Fafá de Belém recorda “um grande compositor, um grande cantor, uma das grandes personalidades portuguesas […]. A sua voz levou poesia onde havia silêncio e fez da música um lugar de encontro, de afeto e de verdade”.

O fadista Ricardo Ribeiro publicou no Instagram a canção “Perdidamente”, que cantou com Luís Represas, e o músico cabo-verdiano Tito Paris, que partilhou palco com o cantor, afirma que “a música lusófona fica hoje infinitamente mais pobre” sem a voz, a generosidade nem o seu talento único. “A tua música e a tua alma continuam vivas em todos nós”, conclui Tito Paris.

Os Quatro e Meia lembram “um homem e músico especial” que tiveram “o privilégio enorme de poder conhecer e partilhar o palco”. “Deu-nos mais do que algum dia poderíamos retribuir”, afirmam, assegurante que a sua arte o “tornou imortal”.

Os Quinta do Bill, que também atuaram com Luís Represas, dizem que Luís Represas deixa “um importante legado, como autor e como intérprete, com canções que percorreram o tempo e marcaram gerações”.

A editora discográfica Universal Music garante, em comunicado, que “foi um privilégio trabalhar com um artista único, que deixa um legado intemporal”, enquanto a Sociedade Portuguesa de Autores fala da perda de “uma das vozes mais importantes da música portuguesa”.

O Centro Cultural de Belém recorda as muitas vezes em que Luís Represas pisou os seus palcos, nomeadamente em 2006, quando aí atuou com o cubano Pablo Milanés.

O Coliseu dos Recreios fala da honra de ter recebido o músico e de ter partilhado com o público “momentos que ficarão para sempre na memória”. E o Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, entre outras salas do país, reconhece “o músico que deu alma a poemas eternos como ‘Perdidamente’, que cantou a liberdade em ‘Timor’ e que nos embalou com temas imortais como ‘Feiticeira’”.

O Centro Nacional de Cultura (CNC), no seu ‘site’, destaca “o momento fundamental dos Trovante”, na música portuguesa, “em que há um reencontro com a tradição trovadoresca da nossa cultura”.

“Numa notável carreira a solo, Luís Represas integrou-se numa tendência que se projetou internacionalmente no diálogo das lusofonias”, prossegue o CNC, lembrando que a canção “Timor”, com o seu refrão “Ai, Timor”, “é um momento fundamental da afirmação de uma cidadania empenhada no combate solidário pelos direitos fundamentais e pela afirmação da independência de um povo”.

O professor da Universidade Nova Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional, na rede social X, põe exatamente em destaque o apoio à luta do povo timorense: “Timor parecia um caso perdido. Os realistas recomendavam resignação e os céticos declaravam inútil o Direito Internacional. Luís Represas não se calou. Hoje, a sua voz recorda-nos que há causas, como as da Ucrânia e da Palestina, que só se perdem quando deixamos de as defender”.

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