A inclusão financeira em Angola cresceu apenas 0,36% em 2025. O menor crescimento em quatro anos

A inclusão financeira em Angola cresceu apenas 0,36% em 2025. O menor crescimento em quatro anos A inclusão financeira em Angola cresceu apenas 0,36% em 2025. O menor crescimento em quatro anos

O índice atingiu 49,97%, o menor crescimento em quatro anos. Apesar de 30 mil contas abertas e avanços na digitalização, Angola continua longe de garantir acesso universal aos serviços financeiros formais.

O Banco Nacional de Angola divulgou dados sobre a inclusão financeira em 2025 que, à primeira leitura, parecem positivos. O índice cresceu de 49,61% em 2024 para 49,97% em 2025 — um aumento de 0,36 pontos percentuais.

À segunda leitura, o número torna-se preocupante.

0,36% é o menor crescimento registado nos últimos quatro anos. Em 2022, o índice subiu de um ponto de partida desconhecido para 46,02%. Em 2023, cresceu para 47,12%. O padrão é claro: a velocidade de expansão da inclusão financeira está a desacelerar — precisamente quando deveria estar a acelerar.

O que os números revelam sobre o estado real da inclusão financeira em Angola

No ano de 2025, o BNA relatou a realização de 270 campanhas de sensibilização para inclusão financeira. Nestas campanhas, foram abertas 30.013 novas contas — 21.969 contas bancárias e 8.044 contas de moeda electrónica.

À primeira vista, 30 mil contas abertas numa única ano parece um número expressivo. Mas quando se coloca na perspectiva de uma população angolana que ultrapassa 34 milhões de habitantes, o número perde impacto imediato. Mais importante ainda: quando se percebe que a expansão anual do índice está a abrandar, torna-se claro que o ritmo de abertura de contas não acompanha o crescimento populacional e a dinâmica necessária para reduzir o fosso de exclusão financeira.

O relatório do BNA é explícito sobre isto. “O índice mantém-se em nível moderado, o que indica a necessidade de prosseguir os esforços para reforçar a inclusão financeira no país.”

Uma leitura entre linhas: praticamente metade da população angolana continua excluída do sistema financeiro formal.

Onde Angola está a fazer progresso: a digitalização acelerada

A história da digitalização em Angola em 2025 é substancialmente diferente da história da inclusão. Aqui, os números são impressionantes.

O Sistema de Pagamentos de Angola registou mais de 3,535 mil milhões de operações no ano, movimentando 463,72 biliões de kwanzas. As operações do Multicaixa dominaram com 98,11% do volume total — um número que, visto isoladamente, parece concentração excessiva, mas que reflete a realidade de que a rede Multicaixa é a infraestrutura de acesso mais capilar do sistema financeiro angolano.

Os dados de digitalização específicos são onde a narrativa ganha tração:

→ Transferências instantâneas (KWiK) cresceram mais de 100%
→ Pagamentos por código QR cresceram mais de 100%
→ Operações do sistema Multicaixa cresceram 50%, com especial destaque para o Multicaixa Express, que representou 64% do total
→ Caixas Automáticos cresceram 12%
→ Descontinuação do uso de cheques avançou

Estes números refletem uma dinâmica real: os angolanos que têm acesso aos serviços financeiros estão a digitalizar-se rapidamente. A barreira não é mais o acesso à tecnologia de pagamento digital. A barreira é o acesso ao sistema financeiro formal em primeiro lugar.

O contraste que importa: quem está incluído digitaliza-se, quem está excluído continua excluído

A realidade que os dados revelam, quando lidos em conjunto, é de um sistema financeiro angolano que está a fazer duas coisas bem: modernizar-se tecnologicamente e servir quem já está dentro. Mas que continua a falhar na tarefa fundamental de expandir o acesso.

Uma pessoa que tem uma conta bancária pode agora efectuar transferências instantâneas KWiK, pagar por código QR e aceder a uma rede de 12% mais caixas automáticos do que tinha acesso no ano anterior. Para essa pessoa, a experiência de usar o sistema financeiro melhorou.

Uma pessoa que não tem conta bancária — e, segundo os dados, aproximadamente 50% da população angolana continua nessa situação — não beneficia de nenhuma destas melhorias. O crescimento de 0,36% no índice de inclusão significa que apenas uma pequena fracção dessa população foi incorporada no sistema durante todo o ano.

A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2027: ambição sem precedentes, resultados ainda incertos

O BNA lançou em 2025 a Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2027, aprovada pelo Decreto Presidencial n.º 237/25, de 18 de novembro. O documento é descrito como “um marco decisivo no alargamento do acesso da população ao sistema financeiro formal, assumindo-se como uma prioridade nacional.”

As palavras são ambiciosas. A execução será determinante.

A estratégia surge num contexto em que:

A inclusão financeira cresceu apenas 0,36% em 2025 — o mais fraco ritmo em quatro anos.
A população excluída continua a representar aproximadamente 50% da população total.
Os obstáculos à inclusão não são tecnológicos — o Multicaixa Express e as transferências KWiK provam que a tecnologia está lá — mas são estruturais.

Os obstáculos reais são conhecidos: falta de documentação de identidade, ausência de histórico de crédito, distância geográfica de pontos de acesso em áreas rurais, desconfiança no sistema financeiro formal e custos de manutenção de conta.

O que o relatório do BNA não diz explicitamente — mas que os números sugerem

Se o ritmo de crescimento da inclusão financeira em 2025 foi de apenas 0,36%, e se esse ritmo continuar a desacelerar, Angola não atingirá uma inclusão financeira universal (100%) em menos de várias décadas.

O relatório menciona campanhas de sensibilização, estratégias nacionais, modernização tecnológica e expansão territorial (delegação provincial no Cuanza Norte, custódia de valores em Saurimo). Estas são acções necessárias. Mas os resultados de 2025 sugerem que não são suficientes.

A questão que fica para decisores e investidores é incómoda: se a inclusão financeira é uma prioridade nacional e tem apoio presidencial via decreto, porque é que o crescimento está a abrandar em vez de a acelerar?

As respostas possíveis são três. Primeira: os esforços ainda não têm escala suficiente. Segunda: os obstáculos são mais profundos do que estratégias e campanhas conseguem resolver. Terceira: a definição de sucesso está desfasada da realidade do mercado angolano.

Provavelmente é uma combinação das três.

A resiliência do sistema financeiro: o verdadeiro indicador de saúde

Enquanto a inclusão financeira avança lentamente, o BNA efectuou em 2025 acções de reforço de resiliência do sistema que sugerem uma instituição a investir na robustez da infraestrutura existente.

O segundo Exercício de Simulação de Crise a nível do sistema financeiro (realizado a 5-6 de Junho de 2025) testou os mecanismos de alerta, mitigação e gestão de crises. A conclusão implícita: o BNA quer estar preparado para quando a próxima crise chegue.

A Avaliação ao Sistema Financeiro (FSAP) do Banco Mundial e FMI foi implementada com o objectivo de “reforçar a resiliência do sistema financeiro nacional e avaliar o seu grau de conformidade com as melhores práticas internacionais.”

A descontinuação do uso de cheques, a ascensão das transferências instantâneas e dos pagamentos por código QR, a modernização do Multicaixa — estas são mudanças que tornam o sistema menos vulnerável a certos tipos de choques.

Mas há um risco que não está sendo endereçado no relatório: um sistema financeiro altamente digitalizado e concentrado num número pequeno de operadores pode ser mais vulnerável a certos tipos de choques tecnológicos ou cibernéticos do que um sistema mais fragmentado e robusto.

O segundo semestre de 2026 será determinante

O relatório do BNA de 2025 retrata um sistema financeiro angolano que está a modernizar-se rapidamente e a servir bem quem já está dentro — mas que continua a falhar na sua tarefa fundamental de expandir o acesso.

A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2027 promete mudança. Se em 2026 o crescimento do índice de inclusão continuar a ser de 0,36% ou inferior, será claro que a estratégia está a falhar.

Se crescer para 1%, 1,5% ou 2%, será um sinal de que a execução está a melhorar.

O sector privado — os bancos, as fintechs, os operadores de moeda electrónica — têm um papel central nesta equação. Os dados de 2025 mostram que a tecnologia e a inovação existem. O que falta é a disposição estrutural de expandir o acesso de forma inclusiva e rentável simultaneamente.

Fonte: Relatório Anual e Contas do Banco Nacional de Angola — 2025

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