Fusão Canal+ e MultiChoice: Dois Mil Milhões de Dólares e uma Guerra Silenciosa pela Liderança

Fusão Canal+ e MultiChoice: Dois Mil Milhões de Dólares e uma Guerra Silenciosa pela Liderança Fusão Canal+ e MultiChoice: Dois Mil Milhões de Dólares e uma Guerra Silenciosa pela Liderança

Joanesburgo, 24 de Março de 2026 — Antigos quadros da MultiChoice e actuais executivos da Canal+ Africa expressam frustração crescente com o modelo de gestão adoptado desde que a francesa Canal+ concluiu a aquisição do grupo sul-africano, em Setembro de 2025. As críticas centram-se na centralização das decisões estratégicas em Paris, que estaria a marginalizar as lideranças locais no continente africano.

A operação, avaliada em cerca de 35 mil milhões de randes — aproximadamente dois mil milhões de dólares —, foi concluída a 22 de Setembro de 2025, após aprovação do Tribunal de Concorrência da África do Sul, tornando-se a maior transacção mediática de sempre em África. A MultiChoice foi subsequentemente retirada da Bolsa de Valores de Joanesburgo em Dezembro de 2025. Com a conclusão do negócio, o antigo CEO da MultiChoice, Calvo Mawela, foi nomeado presidente das operações africanas da Canal+, enquanto os executivos franceses David Mignot e Nicolas Dandoy assumiram os cargos de CEO e CFO do grupo combinado. É precisamente esta transição de liderança que alimenta o descontentamento interno: quadros com décadas de experiência no mercado africano afirmam sentir-se excluídos das deliberações que definem o rumo do negócio.

O contexto operacional não facilita a gestão das tensões internas. A MultiChoice registou uma quebra de receitas de 6% em 2025, para 2,4 mil milhões de euros, enquanto a base de subscritores recuou de 14,9 para 14,4 milhões, penalizada pela desvalorização cambial na Nigéria, cortes de energia, inflação de custos e a dispendiosa saída do serviço de streaming Showmax. Para inverter a trajectória, a Canal+ lançou um plano de recuperação de 100 milhões de euros que inclui a contratação de mais de mil comerciais em todo o continente africano. O grupo projecta sinergias de custos superiores a 150 milhões de euros em 2026, com o valor a crescer para mais de 300 milhões até 2028.

Em Angola, a MultiChoice possui uma presença estruturada e relevante. A DStv foi introduzida no país em 1998, através da Jembas Assistência Técnica, e a empresa MultiChoice Angola Limitada foi formalmente constituída em 2019, contando actualmente com 21 lojas, 77 pontos de venda, 957 agentes e 122 instaladores certificados nas 21 províncias. O investimento no conteúdo local tem sido uma das marcas da operação angolana: em 2021 foi exibido o primeiro reality show produzido integralmente em Angola, transmitido 24 horas por dia, e em 2022 foi lançado o Kwenda Magic, canal dedicado ao público angolano, responsável por produções como as novelas O Rio, Makongo e a série Njila.

Com a aquisição pela Canal+, os grupos combinados passam a oferecer cerca de 10.000 horas de conteúdo por ano em 20 a 35 línguas, juntando as 6.000 horas de conteúdo local da MultiChoice às 4.000 horas de produção africana da Canal+. A dimensão da operação angolana — e o seu enraizamento cultural no mercado local — torna o país um dos territórios onde o equilíbrio entre integração corporativa e autonomia regional se revela mais crítico para o sucesso da fusão.

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