Petróleo angolano, dinheiro cazaque: quem está por trás da Afentra?

Petróleo angolano, dinheiro cazaque: quem está por trás da Afentra? Petróleo angolano, dinheiro cazaque: quem está por trás da Afentra?

Em menos de cinco anos de existência, a petrolífera júnior Afentra consolidou-se como um dos casos de sucesso mais notáveis no sector do petróleo africano, despertando crescente interesse por parte de investidores internacionais.

Fundada em 2021, em Londres, por antigos quadros da Tullow Oil, a empresa construiu rapidamente um portfólio atraente assente em activos de produção com boa relação custo-benefício.

Angola tornou-se o coração estratégico da Afentra. Segundo informação disponível no site da conferência Energy Capital & Power, a empresa detém participações nos blocos offshore 3/05 e 3/05A — onde reforçou a sua posição em 2024 — bem como no Bloco 3/24 e no Bloco KON 19, no onshore, após adquirir uma participação de 45% em 2024. 
Os resultados financeiros reflectem esta trajectória ascendente.

De acordo com a plataforma financeira TipRanks, em 2025 a Afentra registou uma produção líquida média de 6.324 barris de petróleo por dia e uma receita de 114,4 milhões de dólares proveniente de quatro cargas de crude. 
No mesmo período, a empresa concluiu uma revisão independente de reservas e recursos que quadruplicou as suas reservas contingentes 2C para 87,3 milhões de barris de petróleo equivalente, assegurou a operatorialidade do Bloco offshore 3/24 com uma participação de 40% e avançou com a aquisição da Etu Energias. 

No plano operacional, segundo o portal especializado Energy Pedia, uma oportunidade proporcionada pela Sonangol permitiu antecipar o programa de dois poços planeado para 2026 no Bloco 3/05, visando um potencial aumento bruto de produção de cerca de 9.000 barris por dia, sem impacto na despesa de capital da Afentra. 

A empresa também apostou na reactivação de campos abandonados. Durante a African Energy Week 2025, o CEO Paul McDade confirmou planos de reactivar campos suspensos na Bacia de Kwanza, incluindo o Quenguela Norte — a maior descoberta onshore de Angola — que, encerrado em 1999 após produzir 42 milhões de barris, ainda guarda reservas superiores a 200 milhões de barris. 

Estrutura accionista e controvérsias

A estrutura de capital da Afentra tem sido alvo de escrutínio. Segundo análise publicada pelo Yahoo Finance, os insiders detêm 37% da empresa, sendo o maior accionista individual Askar Alshinbayev, com cerca de 21% das acções, seguido pelo CEO Paul McDade, com 2,4%.  As instituições controlam cerca de 52% do capital, sendo os sete maiores accionistas responsáveis por aproximadamente 51% do registo accionista. 

A presença de Alshinbayev na empresa gerou polémica. Segundo investigações do portal britânico Share Prophets, citadas pelo Business Magazine 24, Alshinbayev terá chegado ao registo de accionistas da Afentra em 2022, tornando-se o maior accionista individual depois de uma empresa das Ilhas Virgens Britânicas chamada YF Finance lhe ter transferido a sua participação, sendo que a Zinc SPC — um fundo da Meridian Capital sediado nas Ilhas Caimão — havia transferido previamente uma participação de 9,9% para a YF Finance. 

A Meridian Capital é o nó central da controvérsia. De acordo com o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), trata-se de uma entidade incorporada nas Bermudas, ligada a alguns dos indivíduos mais ricos do Cazaquistão, com interesses em petróleo, gás, mineração e imobiliário em vários continentes.

 A mesma organização investigativa concluiu que a Meridian poderá ter beneficiado de uma relação corrupta com o então ministro do petróleo e gás do Cazaquistão, que terá usado o seu poder, contactos e posição oficial para ajudar a Meridian a crescer. 

Ainda segundo o Share Prophets, os críticos questionaram por que razão as acções teriam sido colocadas directamente em nome de Alshinbayev, levantando a hipótese de que este estaria a agir como “testa de ferro” da Meridian, precisamente porque, ao contrário dos seus parceiros, não é classificado como Pessoa Politicamente Exposta — um estatuto que pode dificultar o acesso a financiamentos. 

A Afentra não foi acusada de qualquer ilícito e não há indicação pública de que tenha respondido formalmente a estas alegações. Porém, a questão coloca em evidência um problema mais amplo no sector petrolífero angolano. Segundo o Índice de Percepção da Corrupção de 2024 da Transparência Internacional, Angola obteve uma pontuação de 32 em 100, ocupando a posição 121 entre 180 países avaliados. 
O caso mais emblemático desta realidade continua a ser o das “Luanda Leaks”, investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ). Em 2024, os procuradores angolanos acusaram Isabel dos Santos de 12 crimes, alegando que ela e os seus associados causaram ao Estado perdas de cerca de 219 milhões de dólares durante o período em que presidiu à Sonangol.  O escândalo expôs não apenas cumplicidades internas, mas também o papel de empresas ocidentais na arquitectura financeira que alegadamente serviu para desviar fundos públicos.

Para a Afentra, a capacidade de navegar este contexto com transparência será tão decisiva para os investidores quanto os seus resultados operacionais.

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