Enquanto Alemanha fecha fronteiras, refugiado vira herói em Hamburgo

Na última sexta-feira (23), uma mulher esfaqueou aleatoriamente 18 pessoas na estação central de trem de Hamburgo. Na plataforma lotada, o ataque só foi interrompido quando um homem descrito como tchetcheno chutou sua perna e um sírio a imobilizou no chão. O primeiro herói continua anônimo; o segundo se chama Muhammad al Muhammad, 19, e ganhou um cappuccino da polícia.

A história do refugiado da região de Aleppo, que chegou à Alemanha em 2022, dividiu as manchetes de sites e jornais com a de um compatriota, que nesta terça-feira (27) será julgado por outro ataque a faca. Em agosto do ano passado, Issa Al H., então com 26 anos, matou três pessoas e feriu outras dez durante um festival na cidade de Solingen.

O ataque de Issa, cujo sobrenome é omitido por questões de privacidade na Alemanha, detonou uma ofensiva anti-imigratória no país, que alterou a legislação de segurança pública, instalou blitze nas fronteiras e foi decisiva no resultado das últimas eleições parlamentares, em fevereiro. Com um discurso xenófobo e populista, a AfD, o partido de extrema direita da Alemanha, alcançou a segunda maior bancada do Bundestag.

O novo governo, do primeiro-ministro Friedrich Merz, pressionado pelas urnas e pelas pesquisas de opinião que já colocam a sigla extremista à frente de sua aliança conservadora, CDU/CSU, mantém um discurso igualmente linha-dura. Ainda que deportação em massa não faça parte do léxico da gestão, controle de fronteiras e flexibilização das leis de asilo e refúgio na União Europeia são itens que surgem cotidianamente em suas manifestações.

Em um julgamento com audiências programadas até setembro em Dusseldorf, Issa responderá por três acusações de homicídio, dez tentativas de homicídio e por pertencer ao Estado Islâmico. Não há dúvida sobre a motivação política do ataque, mas sobram perguntas sobre como o migrante chegou à Alemanha via Bulgária, era conhecido das autoridades e permaneceu no país a despeito de ter seu status de refugiado recusado.

Ainda que a concessão de asilo tenha despencado desde o ataque e o governo seja objeto de críticas de grupos de direitos humanos, o assunto não arrefece. Na última semana, o controle de fronteiras, que recrudesceu com a posse de Merz, foi considerado cosmético por opositores. Provoca ainda rusgas com países vizinhos, que não querem lidar com qualquer tipo de refluxo. A Suíça, por exemplo, vem alertando que a Alemanha está ferindo reiteradamente o Espaço Schengen, o acordo de livre trânsito na Europa.

Em entrevista ao site da revista Der Spiegel, Muhammad contou que, na sexta-feira (26), viu a multidão fugindo da mulher armada com uma faca. “Eu decidi correr na direção dela e pará-la”, afirmou. “Eu a segurei [no chão] e pressionei suas mãos contra a mochila para que ela não conseguisse se levantar”, disse. “Ela não gritou, não resistiu.”

Com histórico de problemas mentais, mas sem nunca ter protagonizado episódios de violência, a mulher de 39 anos logo foi identificada como alemã pela imprensa do país. Estudos mostram que os crimes perpetrados por estrangeiros têm cinco vezes mais volume de publicação em televisões e jornais alemães.

A agressora foi internada em uma instituição, e o Ministério Público ainda vai decidir como será encaminhado o processo. O ferido mais grave passou por operação e não corre mais risco de morte. Indagado como se sentia por ter ganhado apenas um café pelo seu ato de bravura, Muhammad se manteve positivo na entrevista à Der Spiegel: “Fiquei muito feliz”.

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