Ex-terrorista torna-se o primeiro líder da Síria a discursar na ONU em 58 anos

O presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, discursou esta quarta-feira (24) na Assembleia-Geral das Nações Unidas, tornando-se o primeiro chefe de Estado sírio a intervir no plenário em 58 anos. Antes dele, apenas Nureddin al-Atassi havia ocupado o púlpito em 1967, anos antes de Hafez al-Assad assumir o poder através de um golpe militar.

Al-Sharaa, antigo comandante de grupos jihadistas como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, liderou a ofensiva que derrubou o regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024. Apesar do passado controverso, que lhe valeu a classificação de “terrorista” por parte de Washington e Bruxelas, o novo presidente tem procurado projectar uma imagem de renovação e reconciliação, ao mesmo tempo que angaria apoio internacional para a reconstrução do país.

No discurso, o líder sírio acusou a família Assad de ter submetido a população a “décadas de injustiça, opressão e privação”, justificando a revolta popular e a tomada de poder por forças rebeldes. Prometeu ainda levar à Justiça os responsáveis pelos recentes episódios de violência sectária e sublinhou o compromisso de instaurar um governo menos repressivo.

Apesar de ter sido detido por forças norte-americanas no Iraque na década de 2010 e de ter chefiado a Frente Nusra, facção ligada ao Estado Islâmico, al-Sharaa cortou laços com o jihadismo em 2017, ao fundar o Hayat Tahrir al-Sham (HTS), grupo que viria a liderar a ofensiva final contra Assad.

A sua chegada ao poder marcou uma viragem no relacionamento externo da Síria. Os Estados Unidos, sob liderança de Donald Trump, anunciaram em julho o levantamento das sanções contra Damasco e retiraram tanto o HTS como al-Sharaa da lista de organizações e indivíduos classificados como terroristas. A União Europeia segue no mesmo caminho de aproximação.

Com esta intervenção na ONU, a Síria procura consolidar a sua reintegração na comunidade internacional, após mais de cinco décadas de isolamento diplomático sob os Assad.

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