Terras raras representam oportunidade para Brasil se reposicionar no comércio global

Terras raras representam oportunidade para Brasil se reposicionar no comércio global Terras raras representam oportunidade para Brasil se reposicionar no comércio global

As exportações brasileiras de compostos de terras raras para a China triplicaram no primeiro semestre de 2025, alcançando US$ 6,7 milhões. O dado, divulgado esta semana em relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), ainda representa uma fração modesta do comércio bilateral, mas aponta para algo maior: a possibilidade de o Brasil abrir um novo capítulo em sua relação com a China, centrado em setores de maior densidade tecnológica e valor agregado.

As chamadas terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de turbinas eólicas, motores de carros elétricos, baterias, sensores, telas de celulares, catalisadores industriais e sistemas de defesa.

Com o avanço da transição energética e a reconfiguração das cadeias produtivas globais, esses materiais passaram a ser considerados insumos críticos por diversas economias. Embora relativamente abundantes na crosta terrestre, sua separação e refino exigem tecnologias complexas e cuidados ambientais específicos.

A China domina mais de 80% da capacidade mundial de refino de terras raras, mas vem buscando diversificar suas fontes de suprimento. Pressões ambientais domésticas, restrições comerciais externas e a necessidade de garantir segurança em suas cadeias industriais levam empresas chinesas a buscar fornecedores estáveis e em grande escala. O Brasil, com reservas estimadas de 11 a 21 milhões de toneladas, desponta como um desses potenciais parceiros, ao lado de países como Austrália e Vietnã.

No entanto, apesar da abundância mineral, o Brasil ainda participa com menos de 1% da produção global. Apenas uma mina opera hoje em escala comercial, e a maioria dos projetos em desenvolvimento limita-se à extração e exportação de concentrados brutos, sem estruturas locais de separação ou beneficiamento. Isso impede o país de capturar o valor gerado nas etapas seguintes da cadeia, que são justamente as mais rentáveis e tecnológicas.

A construção de uma cadeia produtiva nacional de terras raras esbarra em entraves bem conhecidos. Os processos de licenciamento ambiental são lentos e fragmentados. Falta uma política pública clara para minerais estratégicos. A articulação entre órgãos reguladores é limitada, e os investimentos em pesquisa aplicada ainda são incipientes. Apesar disso, estudos recentes apontam que o desenvolvimento dessa cadeia poderia adicionar até R$ 243 bilhões anuais ao PIB nas próximas décadas.

Mais do que evitar o erro histórico de exportar apenas matéria-prima, o momento atual oferece a chance de usar a demanda chinesa como alavanca para ampliar a sofisticação da pauta exportadora brasileira. Há espaço para negociar acordos produtivos, atrair investimento em refino, desenvolver tecnologias locais e abrir um novo eixo na relação bilateral. O Brasil pode oferecer estabilidade, recursos e condições ambientais mais favoráveis, desde que apresente também um projeto estratégico.

As terras raras não são apenas uma riqueza geológica, mas também uma oportunidade concreta de reposicionar o Brasil nas cadeias globais de valor, conectando desenvolvimento sustentável, inserção internacional e ambição tecnológica. O país tem as reservas, tem o parceiro e tem o timing. O que falta agora é a decisão.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte da Matéria

Add a comment

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *