A unidade da OPEP volta a estar sob escrutínio. Menos de dois meses depois da saída dos Emirados Árabes Unidos — que encerrou seis décadas de pertença ao cartel —, o Iraque, segundo maior produtor da organização e um dos seus cinco membros fundadores, admitiu nos bastidores que pode seguir o mesmo caminho caso Riade não ceda a uma subida significativa da sua quota de produção.
A ameaça não surgiu do nada. E Angola ocupa um lugar central neste processo.
Em Dezembro de 2023, Angola abandonou a OPEP, rejeitando os cortes de produção impostos pela organização. Luanda argumentou que a quota atribuída — 1,10 milhões de barris diários — era incompatível com os seus objectivos de produção. Foi uma decisão pioneira entre os produtores médios do cartel, que abriu caminho a saídas posteriores. Os Emirados Árabes Unidos seguiram em Abril deste ano, ao fim de 60 anos de pertença, citando igualmente divergências persistentes quanto às quotas impostas. A queixa angolana ecoa agora, quase palavra por palavra, nas declarações de Bagdade.
A informação foi avançada em exclusivo pela Reuters, com base em fontes com conhecimento da política petrolífera iraquiana, dando conta de que Bagdade já chegou a avaliar a possibilidade de deixar o grupo. Horas depois, o Ministério do Petróleo iraquiano recuou no tom, afirmando que as notícias não reflectiam a posição oficial do governo. Questionado directamente sobre uma eventual saída, um responsável admitiu apenas que “ainda é prematuro dar esse passo.”
O recuo público não dissipa, contudo, o aviso deixado nos bastidores. “A Arábia Saudita e outros aliados da OPEP devem tratar este assunto com a máxima seriedade. Caso contrário, o Iraque será obrigado a considerar todas as opções disponíveis”, terá afirmado a mesma fonte à Reuters — um ultimato dirigido directamente à liderança saudita do cartel, em tom que recorda a carta de protesto enviada por Angola ao secretariado da OPEP em Novembro de 2023, antes de formalizar a sua saída.
O peso do Iraque é diferente
Caso o Iraque avance mesmo para a saída, o impacto seria de outra escala. Juntos, Iraque e Emirados Árabes Unidos produzem 8 milhões de barris por dia — o equivalente a 27% da produção petrolífera da OPEP. Uma fatia que, a perder-se, deixaria o cartel com uma capacidade de influência muito reduzida sobre os preços globais, num mercado já mais competitivo desde a ascensão do petróleo de xisto norte-americano.
Por detrás da pressão iraquiana está uma economia sufocada. O país depende do petróleo para a maior parte da sua receita, drasticamente reduzida desde que a guerra entre Israel e o Irão bloqueou as exportações através do Estreito de Ormuz. A quota do Iraque para Julho situa-se em 4,378 milhões de barris diários, mas a produção real está muito abaixo desse valor — em Maio, o país bombeou apenas 1,48 milhão de barris por dia, face a quase 4,2 milhões em Fevereiro, antes do início do conflito. Bagdade pretende elevar a produção até aos 7 milhões de barris diários nos próximos anos.
Apesar da escalada retórica, há sinais de que a OPEP está a tentar conter o incêndio. O Ministério do Petróleo iraquiano afirmou que o cartel começou a restaurar gradualmente as alocações de produção do país anteriores à guerra. As avaliações em curso na OPEP+ destinam-se a definir as novas linhas de base de produção para 2027.
O precedente angolano deixou de ser um episódio isolado. Tornou-se referência obrigatória em qualquer análise sobre a coesão da organização — e parte de um padrão que testa os limites de uma estrutura fundada precisamente em Bagdade, há 66 anos.
