O kwanza tornou-se a segunda moeda de liquidação no Sistema de Liquidação Bruta em Tempo Real da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC-RTGS), pondo fim a 13 anos de exclusividade do rand sul-africano como única moeda de referência da plataforma. O anúncio foi feito esta segunda-feira pelo Governador do Banco Central da África do Sul, Lesetja Kganyago, e pelo Governador do Banco Nacional de Angola, Manuel Tiago Dias.
Com a integração, bancos e instituições financeiras aprovadas passam a poder liquidar transacções regionais elegíveis directamente em kwanzas, sem necessidade de conversão prévia para rand ou outra moeda intermediária.
O SADC-RTGS é operado pelo banco central sul-africano em nome dos bancos centrais participantes no bloco regional, conferindo à África do Sul um papel central na infraestrutura de pagamentos que sustenta o comércio na África Austral. A plataforma liga bancos centrais, bancos comerciais e outras instituições financeiras aprovadas em 15 países participantes, processando actualmente cerca de 15 mil milhões de dólares em transacções por mês.
Segundo o Banco Central da África do Sul, a liquidação directa em kwanzas deverá reduzir as necessidades de conversão cambial, diminuir os custos de transacção e permitir que as empresas recebam fundos mais rapidamente.
A inclusão da moeda angolana insere-se na estratégia da SADC de transformar a infraestrutura regional de pagamentos, actualmente concentrada no rand, num sistema de liquidação multi-moeda. O predomínio do rand reflectia a posição da África do Sul como o mercado financeiro maior e mais integrado da região, mas obrigava frequentemente as empresas que negociavam entre outras economias da SADC a converter pagamentos através da moeda sul-africana, expondo as transacções a custos cambiais adicionais e a um maior número de intermediários financeiros.
De acordo com um relatório de supervisão do sistema de pagamentos do banco central sul-africano, os reguladores já tinham aprovado previamente planos para integrar o kwanza angolano e o dólar norte-americano como moedas de liquidação adicionais. O Banco Central da África do Sul adiantou ainda que outras moedas, incluindo a pula do Botswana, deverão ser introduzidas brevemente.
Angola e a concentração comercial com a África do Sul
As transacções comerciais e interbancárias entre Angola e os restantes 14 países participantes na SADC atingiram aproximadamente 3,77 mil milhões de dólares em 2025, distribuídas por nove moedas. A África do Sul foi responsável por cerca de 2,99 mil milhões de dólares desse total, representando aproximadamente 60% do volume de transacções e 79% do valor total, segundo dados divulgados juntamente com o anúncio.
Esta concentração evidencia simultaneamente a importância da África do Sul no comércio regional angolano e a medida em que os pagamentos na África Austral continuam centrados na maior economia do continente.
SADC-RTGS versus PAPSS
O sistema SADC-RTGS distingue-se do Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidação (PAPSS). Enquanto o SADC-RTGS é um sistema interbancário da África Austral utilizado principalmente para liquidar pagamentos entre instituições financeiras participantes na região, com transacções processadas individualmente e liquidadas em tempo real através de moeda de banco central, o PAPSS é uma infraestrutura de pagamentos à escala continental, apoiada pelo Afreximbank, concebida para ligar bancos e prestadores de serviços de pagamento em todo o continente africano.
O PAPSS permite que indivíduos e empresas iniciem pagamentos transfronteiriços nas respectivas moedas locais, com o sistema a gerir a conversão cambial e a liquidação entre instituições financeiras participantes, combinando pagamentos instantâneos, pré-financiamento e liquidação líquida. Na prática, o SADC-RTGS é um sistema regional de liquidação de alto valor, enquanto o PAPSS visa apoiar pagamentos pan-africanos em moeda local no âmbito do quadro de comércio em expansão do continente.
Uma tendência continental
Governos e instituições financeiras africanas têm promovido cada vez mais a liquidação em moeda local como forma de reduzir os custos do comércio intra-africano. Muitas transacções entre países africanos continuam a ser cotadas ou processadas através de moedas como o dólar norte-americano ou o euro, mesmo quando nenhuma das partes está sediada no país emissor dessas moedas — uma prática que pode exigir múltiplas conversões, aumentar encargos bancários e tornar as empresas mais vulneráveis a escassez de divisas.
Ao introduzir mais moedas regionais, a SADC espera reduzir estas fricções e facilitar a gestão de fluxos de caixa transfronteiriços pelas empresas. A iniciativa está ainda alinhada com os objectivos do G20 para pagamentos transfronteiriços, que visam melhorar o custo, a velocidade, a transparência e a acessibilidade das transacções internacionais.
Para Angola, a inclusão do kwanza confere à moeda um papel mais relevante nas finanças regionais. Para a África do Sul, representa uma transição gradual de um sistema construído inteiramente em torno do rand para uma infraestrutura de pagamentos capaz de suportar várias moedas da África Austral.
