As grandes petrolíferas estão a vender quotações em blocos maduros angolanos para financiar a exploração em águas ultraprofundas namibianas, onde as descobertas recentes somam mais de 20 mil milhões de barris estimados.
Angola atravessa uma reconfiguração do seu sector petrolífero. A Chevron, a BP e a TotalEnergies estão a reduzir ou a vender participações em blocos considerados maduros, deslocando capital e foco estratégico para a Namíbia, o novo epicentro da exploração offshore em África.
A operação mais concreta foi a da Chevron, que annonciou a venda de 31 % do Bloco 14 e 15,5 % do Bloco 14K à Energean por 260 milhões de dólares, com pagamentos contingentes que podem alcançar mais 250 milhões até 2038.
A companhia norte‑americana sublinha que não abandona Angola – mantém presença noutros blocos, no Angola LNG e no campo South N’Dola.
A atracção pela Namíbia tem base factual. Em 2022, a Shell confirmou a descoberta de petróleo leve no poço Graff‑1 na Bacia Orange, e a TotalEnergies anunciou a descoberta Venus‑1X – a maior descoberta subsariana jamais realizada e a maior da TotalEnergies em cerca de 20 anos.
Em abril de 2024, a Galp Energia identificou, no campo Mopane, reservas estimadas em 10 mil milhões de barris de petróleo equivalente, após cinco descobertas consecutivas bem‑sucedidas.
A TotalEnergies estima reservas de cerca de 5,1 mil milhões de barris no Venus, com custos de produção projectados abaixo de 20 dólares por barril, e prevê decisão final de investimento para 2026.
Nem todas as apostas na Namíbia resultaram coerentes. A Shell considerou as suas descobertas na Bacia Orange comercialmente inviáveis devido à fraca qualidade dos reservatórios e aos custos elevados, registando uma imparidade de 400 milhões de dólares no início de 2024.
A Chevron também encontrou um poço seco com a perfuração Kapana‑1X em janeiro de 2025, embora tenha adquirido novos blocos na Bacia de Walvis no mesmo ano.
Angola, por contraste, tem campos em declínio acentuado. O país reduziu a produção de dois milhões de barris diários em 2010 para cerca de 1,16 milhão actualmente, e o Bloco 14 produz hoje cerca de 42 mil barris por dia, muito abaixo do seu pico histórico.
O petróleo representa aproximadamente 75 % das receitas do Estado angolano, tornando qualquer redução de produção um problema orçamental directo.
A saída das majors abre, porém, espaço a novos operadores. A Energean entrou em Angola precisamente pela saída da Chevron. Independentes e empresas do Médio Oriente ou da Ásia demonstram apetite por campos maduros que as grandes petrolíferas já não priorizam.
O sector do gás surge como elemento mais resiliente: o Angola LNG em Soyo, liderado pela Chevron, mantém‑se estratégico, e projectos como o Sanha Lean Gas e o New Gas Consortium estão previstos para arrancar entre 2024 e 2026.
A TotalEnergies, maior operadora em Angola, aprovou em maio de 2024 a Decisão Final de Investimento do projecto Kaminho, confirmando que o país não foi abandonado pelas grandes empresas. Contudo, o reequilíbrio de prioridades geográficas está em curso – Angola terá de responder com condições fiscais e de licenciamento mais competitivas para reter e atrair investimento.
