Conteúdo local existe na lei angolana, mas não chega às empresas

Conteúdo local existe na lei angolana, mas não chega às empresas Conteúdo local existe na lei angolana, mas não chega às empresas

Desnível entre a legislação de conteúdo local e a sua aplicação efetiva pressiona investimentos para a Namíbia

Angola enfrenta um dilema crescente no sector extractivo: embora o quadro legal imponha requisitos de conteúdo local, a sua execução revela‑se fraca, encaminhando capitais para a Namíbia, que emerge como destino alternativo.

Dados que evidencia­m a contradição
No sector petrolífero, são 1 247 empresas registadas no Plano de Repropósito de Fundo (PRF), com taxa de certificação de 89 %. Contudo, apenas cerca de 35 % destas obtiveram adjudicações directas ou sub‑contratos em 2025. Apesar de 97 % dos contratos nacionais serem tecnicamente adjudicados a entidades angolanas, apenas 8 % do valor total restante é transferido a empresas 100 % nacionais.

Situação no sector mineiro e diamantífero
A atividade concentra‑se em 12 grandes operadores, enquanto menos de 150 PMEs encontram‑se ainda em processo de formalização, com padrões industriais ainda por cumprir. O Executivo pretende reactivar cerca de 100 concessões mineiras, mas enfrenta obstáculos estruturais.

Obrigações legais e barreiras burocráticas
O Decreto Presidencial n.º 271/20 definiu obrigações claras: cláusulas de conteúdo local em todos os contratos, multas até 200 000 dólares americanos para o incumprimento, regime de exclusividade para serviços como OCTG, slickline e desminagem e margem de preferência de 10 % no preço a favor de propostas locais. Na prática, contudo, a burocracia impede a eficácia – concursos lentos, dificuldades de conversão do registo em contrato, dados geológicos dispersos e ausência de apoio estatal à certificação ISO.

A concorrência da Namíbia
Do outro lado da fronteira, a Namíbia oferece balcão único digital, incentivos agresivos para novos operadores, compliance integrado desde o início e dados geológicos totalmente digitalizados, favorecendo a fuga de capital para o sul.

Propostas do Conselho Consultivo do MIREMPET
Em reunião realizada a finais do ano passado, o Conselho apresentou quatro medidas de rescate: criação de uma Janela Única Digital para acelerar a trasposição do registo à capacidade de licitar; regime de crédito fiscal para quem contrate e forme pessoal local; plataforma de cadastro centralizada, impedindo alegações de desconhecimento de empresas locais; e certificação API Nacional, financiará a elevação técnica das PMEs que pretendam transitar do regime de exclusividade para o de livre concorrência.

Fonte: Líder

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