Angola dispõe de infra-estruturas tecnológicas modernas e de nível competitivo no contexto africano. O problema não está na construção — está na activação. O diagnóstico é de Hélio Santana, Director de Serviços ao Cliente da New Cognito, que interveio na primeira edição do Rota 404 Experience, realizada no sábado, 1 de Agosto, em Luanda.
“Continuamos a não tirar pleno partido dessas infra-estruturas. Precisamos de transformar essa capacidade instalada em utilização efectiva, através da expansão da conectividade de banda larga, do desenvolvimento da infra-estrutura pública digital e da melhoria dos serviços públicos suportados pela tecnologia”, afirmou Santana durante o workshop intitulado Da Incerteza à Oportunidade.
A posição contraria a narrativa habitual de que o principal obstáculo de Angola é a ausência de infra-estrutura. Para o director da New Cognito, o verdadeiro desafio é de conversão — transformar activos físicos e digitais em serviços com impacto económico mensurável.
Janela de oportunidade até 2030
Santana contextualizou o momento com dados globais. Até 2030, estima-se a criação de cerca de 170 milhões de novos postos de trabalho em todo o mundo, ao mesmo tempo que mais de 92 milhões de funções serão substituídas ou profundamente transformadas pela automação e pela inteligência artificial.
Para Angola, este cenário representa uma oportunidade estrutural. O país combina uma população maioritariamente jovem, penetração crescente das tecnologias móveis, baixa maturidade digital das organizações e uma vasta carteira de problemas por resolver — exactamente o perfil que torna os mercados emergentes atractivos para inovação tecnológica de raiz.
“Esta conjugação de factores representa um enorme potencial para a inovação, o empreendedorismo e a criação de soluções tecnológicas capazes de responder às necessidades do país”, sublinhou o responsável.
Desafios persistentes travam o crescimento
O responsável não ignorou os obstáculos. A conectividade limitada e os elevados custos de acesso continuam a excluir uma parte significativa da população e das empresas. A escassez de competências especializadas, agravada por uma formação excessivamente teórica, reduz a capacidade de execução do sector. A baixa maturidade digital das organizações atrasa a adopção de soluções. E os desafios de cibersegurança — com a ausência generalizada de Centros de Operações de Segurança (SOC) e sistemas de monitorização contínua — expõem empresas e instituições a riscos crescentes.
Apesar do diagnóstico exigente, Santana identificou sectores com potencial imediato de crescimento: FinTech, GovTech, EdTech, HealthTech, AgriTech e logística.
Especialização como resposta
Dirigindo-se aos estudantes e profissionais presentes, o director da New Cognito apelou à especialização técnica e a uma arquitectura de sistemas mais resiliente. “É fundamental adoptar uma arquitectura assente em sistemas especializados, em vez de um único supersistema que concentra todas as funções. Devemos ter diferentes sistemas, mas com capacidade de integração — o que permite reduzir o risco operacional”, explicou.
A mensagem central do evento foi clara: Angola não precisa de construir mais. Precisa de activar o que já tem e formar quem vai operar o que vem a seguir.
O Rota 404 Experience é uma iniciativa que visa desenvolver e acelerar carreiras na área tecnológica, através de mentorias, eventos e orientação estratégica para jovens talentos do mercado digital angolano.
