Série: O Investidor: Antes de investir, conheça o investidor que existe em si

Série: O Investidor: Antes de investir, conheça o investidor que existe em si

Angola vive, sem dúvida, um dos momentos mais promissores da história do seu mercado de capitais. A entrada de novas empresas na BODIVA e, sobretudo, a recente OPV da Unitel e agora o Standardbank na fila, despertaram, em milhares de cidadãos, um interesse que, até há poucos anos, estava reservado a um círculo relativamente restrito.

Angola vive, sem dúvida, um dos momentos mais promissores da história do seu mercado de capitais. A entrada de novas empresas na BODIVA e, sobretudo, a recente OPV da Unitel e agora o Standardbank na fila, despertaram, em milhares de cidadãos, um interesse que, até há poucos anos, estava reservado a um círculo relativamente restrito.

Estas operação evidenciam uma mudança relevante: o investimento em ações deixou de ser um tema restrito aos mercados financeiros e passou a fazer parte das conversas do dia a dia, dos debates empresariais e das decisões financeiras das famílias angolanas.

Este interesse é positivo. Economias que prosperam são, em larga medida, aquelas que conseguem transformar poupança em capital produtivo. Um mercado de capitais mais dinâmico pode permitir que empresas encontrem financiamento, que investidores participem no crescimento dessas empresas e que a poupança das famílias encontre novas formas de aplicação.

Entretanto, antes de escolher qualquer ativo, seja ações, obrigações ou outros instrumentos financeiros, o investidor precisa, porém, de se conhecer a si próprio. Precisa de fazer uma pergunta simples, mas fundamental: conheço realmente o investidor que existe em mim?

Investir apenas porque determinado título ou ação está na moda é uma das formas mais fiáveis de perder dinheiro. Como advertiu Warren Buffett, um dos investidores mais bem-sucedidos da história dos mercados financeiros, “nunca invista num negócio que não consegue entender”. O ponto de partida de qualquer investimento nunca está no produto financeiro. Está na pessoa que investe: no seu conhecimento, na sua capacidade de compreender o risco e, sobretudo, na sua disciplina para tomar decisões conscientes.

Cada investidor vive circunstâncias distintas. Há quem tenha rendimentos estáveis. Há famílias com encargos elevados e, logo, sem margem de manobra. Estas diferenças determinam o tipo de risco que cada um pode e deve assumir.

É precisamente por essa razão que a definição do perfil de investidor constitui uma etapa indispensável antes de qualquer decisão de investimento. De forma geral, podemos identificar três perfis clássicos:

  • Conservador: privilegia a preservação do capital e prefere estabilidade com retornos baixos.
  • Moderado/Neutro: procura equilíbrio entre segurança e crescimento. Aceita alguma volatilidade em troca da possibilidade de melhores resultados no longo prazo.
  • Agressivo: aceita oscilações mais pronunciadas, consciente de que períodos de perda fazem parte do caminho para retornos potencialmente superiores.

Nenhum destes perfis é, por si só, melhor do que os outros. O investidor conservador não é necessariamente menos ambicioso. O agressivo não é necessariamente mais corajoso. O que importa é a compatibilidade entre o perfil, os objetivos, o horizonte temporal e a realidade financeira de cada pessoa. Para isso, vale a pena responder honestamente a algumas perguntas simples, embora muitas vezes desconfortáveis:

  • Qual é a sua situação financeira e qual é a sua capacidade real de poupança mensal?
  • Quanto estaria disposto a perder sem comprometer a sua situação financeira?
  • Como reagiria se o seu investimento perdesse 10%, 20% ou 30% do seu valor?
  • Qual é o seu nível de experiência com investimentos? Compreende os riscos associados?
  • Possui uma reserva de emergência ou está a investir dinheiro de que poderá precisar no curto prazo?

A maioria das pessoas só descobre o seu verdadeiro perfil de investidor quando começa a perder dinheiro. Para evitar esse erro, desafiamos os nossos leitores a descobrirem o seu perfil de investidor antes de investirem o seu primeiro ou os proximos kwanzas. O questionário é totalmente anónimo, demora menos de dois minutos. Faça o teste aqui: [AQUI] ou no site www.oi-investidor.com

Se já respondeu ao questionário, provavelmente identificou o seu perfil de investidor. E essa descoberta, aparentemente simples, pode ser determinante para a forma como irá encarar o risco, gerir expectativas e tomar decisões financeiras ao longo do tempo.

Portanto, vale referir que nenhum dos perfis, conservador, moderado ou agressivo, é superior aos outros. O erro não está em ser conservador ou agressivo. O erro está em investir de forma incompatível com a sua própria natureza enquanto investidor ou, melhor ainda, distante da sua realidade financeira e emocional.

Como dizem os mais velhos: “Se Ngite Mate Buelo, o mate avutukila mo polo.” Tradução literal: “Quem cospe para o ar corre o risco de ser atingido pelo próprio gesto.”

Portanto, nos mercados financeiros, decisões tomadas sob o impulso do momento ou por tendência tendem a cobrar o seu preço mais tarde. Em períodos de valorização, é fácil acreditar que se tem elevada tolerância ao risco. Mas, quando chegam as primeiras quedas significativas, o entusiasmo dá lugar à ansiedade e a estratégia é substituída pela emoção.

É precisamente nesses momentos que o autoconhecimento revela o seu valor real.

Por isso, antes de comprar qualquer ação ou obrigação, existe um investimento prioritário: o investimento no autoconhecimento financeiro. Antes de perguntar “Em que devo investir?”, a pergunta mais determinante é outra: “Quem sou eu enquanto investidor?”

A resposta a essa questão será, na maioria dos casos, mais importante para o sucesso financeiro do que a escolha de qualquer ação ou outro investimento.

Portanto, à medida que Angola alarga o acesso dos cidadãos ao mercado de capitais, a verdadeira democratização financeira não será medida pelo número de pessoas que compram ações numa oferta pública. Será medida pela qualidade das decisões que esses investidores tomarem. Porque investir não é apenas comprar ativos. É alinhar objetivos, risco e disciplina.

E os melhores investimentos não começam no mercado.  Começam no investidor.

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