Com o Brent a rondar os 127 dólares, Angola regista aumento nas receitas petrolíferas, porém enfrenta elevação da inflação, subsídios e custo de vida.
O encerramento efectivo do estreito de Ormuz, após o conflito irânico iniciado a 28 de fevereiro, continua a elevar os preços do petróleo nos mercados globais. A península do Mar do Norte chegou a 126,41 dólares por barril a 29 de abril – preço exclusivo da fase inicial da guerra na Ucrânia – e analistas projectam uma subida até 150 dólares, podendo fixar um novo recorde acima dos picos de 2008.
Em apenas dois meses, os preços do Brent quase duplicaram, ao nível de aproximadamente um quinto do crude mundial (cerca de 20 milhões de barris diários). Teerão delimitou inicialmente a passagem apenas aos seus próprios navios e aos de aliados. Após o cessar‑fogo de início de abril, Washington impôs um bloqueio naval aos portos iranianos, medida que o ex‑presidente Donald Trump considerou mais eficaz que bombardeamentos, ainda que os custos se repassem à economia mundial.
As negociações permanecem estagnadas: os EUA demandam o desmantelamento do programa nuclear iraniano; o Irão requer o restabelecimento do controlo de Ormuz e o pagamento de reparações. Trump reiterou, na passada semana, que o bloqueio poderia continuar “meses, se necessário”.
Para Angola, o cenário tem duas faces. O economista angolano Flávio Inocêncio avalia que os preços aquecidos vão gerar um “crescimento muito grande da receita petrolífera”, ainda que temporário. O Orçamento Geral do Estado de 2026 foi elaborado com referência a 61 dólares por barril, enquanto a média do primeiro trimestre atingiu 80,52 dólares – 19,52 dólares acima do pressuposto base.
Com o Brent a aproximar‑se de 127 dólares, as receitas suplementares podem ser consideráveis, mas o quadro também apresenta incógnitas. A Oxford Economics afirma que o impacto económico é ambíguo: maiores receitas de exportação melhoram os balancetes orçamental e externo, porém a limitada capacidade de refinação obriga Angola a importar petróleo refinado, sustentando elevados subsídios aos combustíveis para proteger o consumidor.
O OGE 2026 já previa a redução de 39,8 % nos subsídios de combustíveis face a 2025. O incremento atual do preço do crúdio poderá comprometer essa meta. Se os preços de retalho não forem ajustados, o Estado suportará um diferencial crescente entre o custo de importação e o preço interno, pressionando as finanças públicas e fomentando o contrabando para países vizinhos.
O economista Daniel Sapateiro alerta que o encarecimento dos transportes e da energia reverberará nos preços dos bens alimentares e não alimentares, sobretudo fertilizantes, ampliando o custo de vida das famílias angolanas. A Agência Internacional de Energia classificou a actual disrupção como o maior choque de oferta de crude da história; Peter Krugman, laureado com o Nobel de Economia em 2008, advertiu sobre o risco de uma recessão global caso Ormuz permaneça fechado por mais três meses.
Nos Estados Unidos, a inflação medida pelo índice PCE ascendeu a 3,5 % em comparação com 2,4 % em fevereiro, e os rendimentos das obrigações soberanas aumentaram em várias regiões. Flávio Inocêncio defende que o excedente de receitas deve ser direccionado para o sector social: “Neste período deveria haver uma preocupação com o sector social.” A sugestão ganha relevância num país onde a inflação, ainda que em desaceleração, permanece acima de 12 %.
Redação Líder
