João Lourenço justifica a saída da OPEP e a aposta na Refinaria do Lobito, apesar da queda do Brent de 126 para 102 dólares na última semana, após boatos de acordo entre EUA e Irão.
Em visita do Presidente gabonês Brice Clotaire Oligui Nguema a Luanda, o Presidente João Lourenço avaliou a política petrolífera angolana e concluiu que o conflito no Médio Oriente confirmou a pertinência das decisões tomadas.
A desvinculação da OPEP em janeiro de 2024, o reinício das obras da Refinaria do Lobito e a perspetiva de produção sem limitações de quotas foram respaldados, segundo Lourenço, pelos acontecimentos recentes no Estreito de Ormuz. “É imprescindível elevar a oferta mundial de petróleo para baixar os preços do crude”, declarou o Presidente à imprensa na Sala dos Tratados do Palácio Presidencial.
A fala surge num período de volatividade nos mercados de energia, com o Brent a reclinar mais de seis por cento, registando cerca de 103 dólares na quarta‑feira, após notícia de que Estados Unidos e Irão aproximam‑se de um acordo que poderá pôr fim ao conflito. O preço, que atingiu 126 dólares no auge da tensão, volta a descer – precisamente porque a guerra referenciada por Lourenço pode encerrar brevemente.
Antes da eclosão do conflito, mais de cento navios transpassavam diariamente o Estreito de Ormuz, movimentando cerca de 20 % do petróleo e do gás natural liquefeito a nível mundial. Ainda que o estreito volte a operar, a normalização dos fluxos deverá demorar várias semanas. O Orçamento do Estado foi elaborado com base num preço de referência de 61 dólares por barril; assim, apesar da actual queda, Angola continua a receber valores superiores ao previsto – haja vista a incerteza quanto à sua duração.
Refinaria do Lobito em risco de atraso
A segunda medida-crí ntica defendida por Lourenço, a conclusão da Refinaria do Lobito, ainda não está pronta; o Presidente reconheceu o entrave: “Foi uma decisão acertada, mas ainda não temos a instalação operativa, embora a procura por refinados seja elevada e haja escassez que pressiona os preços.” A obra, orçada em mais de 6,27 mil milhões de dólares, está prevista para ser concluída em 2029, com início da produção parcial em 2026, e é financiada exclusivamente pela Sonangol, sem parceiros confirmados. A janela de preços criada pelo conflito do Médio Oriente justificaria a atividade da refinaria neste momento, mas Angola não dispõe ainda da capacidade.
Saída da OPEP – implicações complexas
Lourenço sustentou que o conflito valida a política de produção livre de quotas, mas a realidade do mercado permanece ambígua: Angola continua a depender das decisões da OPEP + sobre cortes ou aumentos de oferta, ainda que não participe formalmente das deliberações. Como price taker, o país mantém a vulnerabilidade a alterações externas independentemente da filiação.
O Presidente acertou ao afirmar que o petróleo permanecerá como a principal fonte de energia “durante muito tempo”. O comportamento do mercado nas próximas semanas, sobretudo em função dos eventuais desenvolvimentos em Teerão, definirá a eficácia das estratégias adotadas.
Fonte: Comunicação oficial da Presidência da República
