Exposição do Novobanco transforma a fotografia em encenação de identidades

Exposição do Novobanco transforma a fotografia em encenação de identidades Exposição do Novobanco transforma a fotografia em encenação de identidades

Exposição “Personae” reúne referência internacional da fotografia para debater identidade

Coleção de Fotografia do Novobanco, Lisboa, apresenta obras de Cindy Sherman, Marina Abramović, ORLAN e Helena Almeida

A nova mostra “Personae”, inaugurada na cave da Coleção de Fotografia do Novobanco, no Marquês de Pombal, reúne 16 fotografias de autoras reconhecidas internacionalmente para analisar a identidade sob as óticas visual, social e política. A curadora Alexandra Conde conduziu a visita, explicando que a exposição constitui “uma encarnação temporária” que permite investigar género, poder e memória, com os próprios fotógrafos assumindo papéis narrativos durante períodos que variam de dias a meses.

A lógica da personagem
Conde esclarece que, em arte plástica, “personae” significa a assunção deliberada de outra identidade, real ou fabricada, transformando‑a em personagem artístico. Essa premissa governa toda a exposição, onde os criadores deixam de ser meros documentadores para se tornarem as próprias figuras que retratam, alterando a relação entre fotografia e performance.

Cindy Sherman e a crítica ao elitismo
A entrada ao recinto revela “Cindy Comboy”, obra em que a fotógrafa usa uma moldura dourada e um brilho de ouro como instrumentos de poder e ostentação, apontando para uma “crítica mordaz à elite contemporânea e à máscara da aparência”. Outras fotografias de Sherman, como “Film Still”, recriam a iluminação teatral do cinema clássico e produzem “um fotograma de um filme inexistente”, ecoando memórias coletivas sem referir nenhuma narrativa concreta. Numa peça associada ao palhaço, a artista “anula a fronteira entre o riso e o medo”, explorando detalhes como “peluche e peito desigual” para evidenciar a tensão entre inocência infantil e deformação corporal.

ORLAN e o corpo como espaço de resistência
ORLAN, presente na mostra, funde o seu rosto com anéis tradicionais das mulheres Padaung, da Birmânia, confrontando padrões de beleza impostos. Para Conde, “o corpo é o nosso último espaço de liberdade e de resistência”, reforçando o caráter confrontativo da obra.

Contexto e implicações
Ao aglomerar obras que misturam retrato, ficção e performance, a exposição reforça o papel das coleções privadas como catalisadoras do debate cultural em Portugal. A abordagem de “personae” questiona normas sociais e abre espaço para reflexões sobre identidade na era da imagética digital, podendo influenciar curadores e institutos de arte a incorpor mais práticas performativas nas exposições fotográficas.

A Coleção de Fotografia do Novobanco permanece aberta ao público, oferecendo um percurso que interroga a construção visual da identidade contemporânea.

Fonte: Forbes Portugal

Corpo e memória no fotográfico: a tração simbólica da exposição coletiva
Uma análise das intervenções de Marina Abramović, Jane & Louise Wilson, Helena Almeida, Erwin Olaf, Hannah Starkey e Nikki S. Lee e das suas implicações na perceção do quotidiano como espaço ritual e performativo

A présentation artística funciona como arena de luta política, de acordo com a curadora Alexandra Conde. Na mostra, Marina Abramović reaporta a iconografia de Santa Teresa de Ávila para metamorfosear uma cozinha doméstica em zona litúrgica; Jane & Louise Wilson desmontam a memória em bibliotecas deságua­das; Helena Almeida abandona a pintura para habitar fisicamente o quadro; Erwin Olaf regula o „branco sobre branco“ metálico; Hannah Starkey cria um estúdio televisivo sob holofotes azuis; e Nikki S. Lee converte a identidade em Personae camaleónica.

Abramović – da cozinha ao sagrado
A artista retoma imagens da reforma católica para converter um espaço quotidiano numa sensação quase religiosa. Ao inserir rituais e objetos sacros, a cozinha deixa de ser mero palco doméstico e passa a representar um altar de transcendência corporal e emocional.

Jane & Louise Wilson – bibliotecas arqueológicas
Na instalação, prendas de livros incompletos simulam sítios de escavação. A curadora descreve‑as como “bibliotecárias de memórias perdidas”, sublinhando a tentativa de reconstruir narrativas esfumaçadas a partir de remanescentes fragmentados.

Helena Almeida – fotografia que se encarna
Conde destaca o rosto da artista pintado de azul dentro de um quadro fotográfico, simbolizando a ruptura da pintura e a migração para a fotografia. Doze fotogramas constituem uma sequência quase fílmica em que o corpo deixa de ser representação para inteiro componente da obra visual.

Erwin Olaf – perfeição fria
As duas imagens horizontais, rotuladas de espaços “branco sobre branco”, apresentam‐se como composições pugnas‑clínicas onde a técnica clássica disfarça uma tensão subliminar. Individuais, cada fotografia possui força; a postura coletiva intensifica a carga magnética da exposição.

Hannah Starkey – estúdio televisivo en regimen azul
Sob luzes duras, a figura feminina aparenta flutuar entre vulnerabilidade e encenação. A tonalidade azul confere ao cenário uma atmosfera de rotina mediática, interrogando a autenticidade da imagem num mundo dominado pelo performance pública.

Nikki S. Lee – identidade como performance
A artista adopta soldados diferentes, alterando aparência, comportamento e estilo de vida para fundir‑se a comunidades dispares. Conde realça que Lee “assume a identidade como ferramenta artística”, demonstrando que a personalidade humana pode funcionar como encenação camaleónica.

Implicações para o panorama artístico angolano
Ao transformar objetos quotidianos em espaços ritualísticos e ao descolocar a fotografia do registo documental para a criação de personagens articulados, a mostras reivindica uma nova base para a prática artística em Angola. Ao evidenciar o entrecruzamento entre política, história e performatividade, potencia o desenvolvimento de projectos artísticos que dialogam com o sector criativo nacional e atrai investimento cultural como forma de diversificação económica.

Perspetiva
A exposição sugere que, à medida que artistas globais privilegiem a convergência entre corpo, memória e identidade, o mercado de arte angolano poderá experienciar novas dinâmicas de curadoria e colecções, preparando o terreno para futuras programações institucionalizadas.

Fonte: comunicado de imprensa da exposição

Exposição “Personae” aprofunda identidade e autorias com fotografia e inteligência artificial

Fotografias de Nikki S. Lee, onde a própria artista integra o enquadramento, revelam o contacto com as comunidades onde voluntariamente se inseriu.

A mostra “Personae”, atualmente instalada no espaço da Coleção do Novobanco, na Praça Marquês de Pombal nº 3A, em Lisboa, não se limita a explorar a noção de identidade. O curatorial questiona quem constrói o discurso artístico e quais são as ferramentas empregues nesse processo. O texto que acompanha a exposição foi completamente gerado por inteligência artificial e depois validado por Alexandra Conde, reflexão integral ao tema “Personae”.

Inteligência artificial como ferramenta curatorial
Alexandra Conde explica que a decisão de recorrer à IA não visa substituir a autoria, mas torná‑la visível: “Tal como os artistas assumem outras personas para questionar o real, também a curadoria pode recorrer a novas ferramentas para expandir o seu campo de criação”. Assim, a IA funciona como extensão conceptual, possibilitando uma análise mais profunda da mediação e da construção contemporânea do discurso artístico.

Fotografia e narrative comunitária
As imagens de Nikki S. Lee ilustram a vivência voluntária nas comunidades investigadas, inserindo a fotógrafa no próprio quadro. Essa abordagem reforça a proposta da exposição de desconstruir fronteiras entre observador e observado, ao mesmo tempo que enfatiza a pluralidade de personas que moldam a identidade social.

Persistência da visita
“Personae” permanecerá ao público até ao final do ano, permitindo aos visitantes experimentar a intersecção entre fotografia documentação e tecnologias emergentes num espaço privado de inteligência cultural.

A iniciativa evidencia como a integração de novas tecnologias pode ampliar a perspetiva curatorial, gerando debates sobre autoria e mediação que repercutem no circuito artístico contemporâneo.

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