Unitel desmaterializa acções e avança para IPO entre Junho e Setembro de 2026

Unitel desmaterializa acções e avança para IPO entre Junho e Setembro de 2026 Unitel desmaterializa acções e avança para IPO entre Junho e Setembro de 2026

A maior operadora de telecomunicações de Angola entra na bolsa com 15% do capital. Lucros dispararam 183% em 2024, mas dependência de dividendos bancários levanta questões sobre modelo de negócio.

A desmaterialização das acções da Unitel na Central de Valores Mobiliários (CEVAMA) confirmou a antecipação do mercado: a maior empresa de telecomunicações de Angola está pronta para iniciar a sua introdução na bolsa, com previsão de arranque entre Junho e Setembro de 2026.

A desmaterialização — transformação de acções físicas em digitais — é o primeiro passo obrigatório antes de qualquer Oferta Pública Inicial. Permite a troca de titularidades múltiplas vezes num único dia e é condição necessária para negociação no mercado secundário.

A Oferta Pública Inicial

A Unitel manterá 85% do capital na autoretenção estatal, destinando 15% a uma Oferta Pública Inicial na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA). Destes 15%, 2% são reservados a trabalhadores e membros dos órgãos sociais da companhia.

O Estado detém a totalidade das acções da Unitel, distribuídas 50% através do IGAPE e 50% vinculados ao universo da Sonangol. Esta estrutura resulta da nacionalização das participações da Vidatel e da Geni em Outubro de 2022, participações que anteriormente pertenciam à empresária Isabel dos Santos e ao general Leopoldino “Dino” Fragoso do Nascimento.

Resultados financeiros impressionantes

O desempenho financeiro da Unitel nos últimos anos foi substancial. Em 2024, o lucro líquido disparou 183%, passando de 34,6 mil milhões de kwanzas em 2023 para 99,4 mil milhões de kwanzas. Em dólares, os lucros cresceram 161%, passando de 41,7 milhões para 109 milhões de dólares.

Em 2025, o crescimento continuou. Os lucros atingiram 158,4 mil milhões de kwanzas, com os resultados operacionais a mais do que triplicar, crescendo 288% para 66 mil milhões de kwanzas.

A operadora conta actualmente com cerca de 20,8 milhões de clientes e detém uma quota de mercado de 76%.

A questão subjacente: dependência de dividendos bancários

Contudo, um detalhe crítico merece atenção. Os resultados operacionais — os que decorrem directamente da actividade de telecomunicações — fixaram-se em apenas 17 mil milhões de kwanzas em 2024, representando menos de 20% do lucro total reportado.

Uma parte significativa dos lucros resulta dos dividendos da participação de 51,9% que a Unitel detém no BFA, o segundo maior banco em activos do sistema financeiro angolano.

Esta estrutura levanta questões sobre a verdadeira saúde operacional do negócio de telecomunicações e sobre a sustentabilidade dos lucros reportados. Se os dividendos bancários deixassem de fluir no mesmo volume, o perfil de lucratividade da Unitel seria significativamente diferente.

Histórico de adiamentos

A privatização da Unitel tem um historial de adiamentos. O processo estava inicialmente previsto para o primeiro semestre de 2025, tendo sido sucessivamente adiado no âmbito do Programa de Privatizações (PROPRIV) 2023-2026.

A concretização da desmaterialização agora é considerada o sinal mais concreto de que desta vez o processo avança. Especialistas em mercados de capitais referem que a Unitel deve ser o próximo activo a fazer IPO, já que o Standard Bank terá adiado a sua para o final do ano.

Implicações para o mercado angolano

A entrada da Unitel na bolsa deverá ampliar a profundidade do mercado de capitais angolano, atrair investimento estrangeiro e melhorar a liquidez de acções no sector de telecomunicações.

Até ao início de 2026, o Programa de Privatizações já tinha garantido ao Estado mais de 700 mil milhões de kwanzas em receitas efectivas, num total de 121 activos já alienados.

A próxima questão é como o Estado e o regulador gerem a entrada da Unitel na bolsa. A dependência de dividendos bancários — que representa mais de 80% dos lucros reportados — será certamente tema de análise para potenciais investidores e para o regulador, que poderá reavaliar os pressupostos de profit sharing entre o sector de telecomunicações e o sector financeiro.

Fonte: Jornal de Angola

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